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Imagem de satélite mostrando período de maior atividade recente do El Niño, em novembro de 1997.

Há seis mil anos El Niño influencia o clima do planeta


Avaliações paleontológicas e levantamentos arqueológicos indicam que fenômeno é bem mais antigo do que se acreditava. E é alta a probabilidade de que ocorra novamente este ano.

(Agência Brasil)



      Os primeiros registros de El Niño foram feitos no século XVI pelos Incas e colonizadores espanhóis, que citam em documentos a ocorrência de fortes chuvas, alagamento provocado pelo transbordamento de rios e viagens de duração de dois anos que foram feitas em poucos meses devido a fortes ventos.

      Mas, segundo o chefe da Seção de Hidrometeorologia do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), José de Fátima, o fenômeno é mais antigo. Avaliações palenteológicas e levantamentos arqueológicos, como análise de cores de sedimentação do gelo e anéis de crescimento das árvores mostram que o El Niño já se manifestava há seis mil anos.

      Apesar de se formar perto da costa do Peru, o El Niño tem conseqüências em todo o mundo, com os maiores efeitos concentrados na América do Sul e Austrália. O evento de 82/83 causou enchentes e tempestades nos Estados Unidos, seca no México, América Central, sul e norte da África, além da Península Ibérica, enchentes na Europa Oriental e chuva intensa no sul da China.

      Impacto global
      Graças aos seus efeitos sobre a pesca e por ter uma maior atividade na época do natal, o fenômeno foi batizado pelos pescadores da costa ocidental da América Central como "El Niño", ou a "Criança do Senhor".


Em condições normais, os ventos alísios sopram em direção oeste por sobre o Oceano Pacífico, aquecendo as águas da Austrália e Nova Guiné. O acúmulo de águas quentes no lado ocidental do Pacífico provoca chuvas nesta região e faz com que águas mais frias e ricas em nutrientes atinjam a costa da América do Sul, aumentando sua população de peixes.


Durante o El Niño, os ventos alísios se enfraquecem, causando secas na Austrália e Indonésia. Águas quentes e pobres em nutrientes dominam o Pacífico, diminuindo a população de peixes e provocando chuvas fortes no Pacífico Central. O ar quente produzido pelo oceano eleva-se e altera as condições meteorológicas em toda a América.


Fenômeno pode se manifestar este ano

      O ano no Brasil começou com enchentes no Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste. Essa chuva atípica pode se repetir a partir do segundo semestre, só que desta vez no Sul do país, com a diferença de que a intempérie deve ser motivada não pelas frentes frias, como ocorreu agora, mas sim pelo fenômeno El Niño.

      Dados do National Centers for Environmental Prediction (NCEP) e National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), ambos dos Estados Unidos, mostram que o oceano Pacífico está meio grau centígrado mais quente na costa do Peru e dois graus acima na região da Argentina. A informação é o principal indicador para a previsão do El Niño, que se forma em decorrência do aquecimento anormal nas águas oceânicas e se mantém enquanto a oscilação persiste.

      Segundo o coordenador geral do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Carlos Nobre, há 80% de probabilidade que ocorra um El Niño este ano. "Não posso falar que é certo porque em meteorologia a palavra certo é perigosa", alerta. Mas, entre os especialistas, um dado é consenso: caso aconteça, o fenômeno será de proporções reduzidas.

      Isso significa que dos efeitos do El Niño - chuva no Sul e seca no Nordeste -, apenas o primeiro poderá ocorrer. "É provável que haja maior incidência de chuva no centro-oeste, sul e sudeste a partir de junho, julho", diz Expedito Rebello, chefe da Divisão de Meteorologia Aplicada do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). Segundo a pesquisadora Teresinha Xavier, da Academia Cearense de Ciências (ACC), só El Niños fortes causam seca severa no Nordeste.

      Rebello acredita que apenas depois de 2004 ocorrerá um outro episódio de significativas proporções, como o de 97/98, visto que o intervalo médio entre El Niños fortes é de dez anos. De acordo com ele, as hipóteses sobre a intensidade do próximo fenômeno serão conhecidas em cerca de três meses, tempo necessário para que os técnicos avaliem a constância, aumento ou diminuição da temperatura na superfície do Pacífico e demais condições climáticas da região.

      Hoje é possível prever um possível El Niño com seis meses a um ano de antecedência. A tecnologia é recente e alertou sobre os episódios ocorridos a partir de 1987. Segundo Carlos Nobre, do CPTEC, o principal instrumento para previsão do El Niño são modelos matemáticos do oceano que tentam representar com a máxima fidelidade as correntes marítimas e sua evolução. "Desta forma é possível verificar a gestação de um El Niño dentro do oceano, ainda que ele não tenha aflorado à superfície", diz.

      Nobre explica que os modelos sintetizam o conhecimento sobre o comportamento das correntes existentes até hoje. "O programa de computador codifica equações que tentam representar leis da física que controlam os movimentos no oceano e sua interação com a atmosfera".

      Os cientistas também monitoram a área do Pacífico com 80 bóias colocadas à distâncias de 500 km a 1000 km, distribuídas na linha de 12 mil quilômetros compreendidos entre a costa leste da América do Sul e Oceania. Tanto as bóias quanto o cabo que as prendem ao fundo do mar fornecem informações sobre a temperatura da água e correntes até 500 metros abaixo da superfície, além de dados sobre umidade, ventos e radiação solar. Nas áreas não cobertas pelas bóias, as informações são provenientes de navios que passam pela região e satélites

      Ainda não se descobriu porque no intervalo de alguns anos a água da superfície do oceano Pacífico aquece além dos 26° C normais. O que se sabe é que a intensidade do fenômeno é proporcional à elevação da temperatura da água. A oscilação entre 2 e 3° C caracteriza eventos moderados; entre 3 e 5° C indica eventos fortes, e 7° C a 12° C fenômenos muito fortes. "Sete graus é quase que como uma bomba atômica para o oceano", ressalta Expedito Rebello, do INPE.


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