O "ya ma" que virou "ya ba"
Antiga droga anfetamínica é "redescoberta" por jovens do Sudeste Asiático
Dr. George Felipe de Lima Dantas *
As anfetaminas são compostos orgânicos, protótipos das drogas anfetamínicas
sintéticas (Benzedrina, Dexedrina, metanfetamina), tendo sido primeiro
sintetizadas em 1887. Elas são, essencialmente, estimulantes do sistema
nervoso central, causando vigília, euforia, diminuição da fadiga e aumento
da capacidade de concentração. Freqüentemente chamadas em inglês de "speed"
(velocidade), as anfetaminas são tradicionalmente utilizadas por pilotos,
motoristas, militares e outros profissionais que precisam permanecer
acordados além do limite humano normal. Seus efeitos indesejáveis incluem
inquietação, insônia, tremores e irritabilidade. O mais típico dos sintomas
de abstinência é depressão profunda. A tolerância com as anfetaminas aumenta
rapidamente com o passar do tempo, fazendo que o usuário demande doses cada
vez maiores, o que caracteriza a dependência química. Grandes doses podem
produzir um estado psicótico semelhante ao da esquizofrenia.
Do antigo nome em tailandês, "ya ma"--"remédio de cavalo", a mais nova
anfetamina a chegar ao mercado ilícito foi rebatizada como "ya ba"--"remédio
de louco". Ela é hoje vendida sob a forma de comprimidos coloridos, muitas
vezes com odor baunilha, produzindo excitação e euforia, seguidos de
agressividade e violência, efeitos que podem durar de 8 a 24 horas.
A dependência do "ya ba" é cerca de três vezes maior que a de uma outra
anfetamina bem conhecida dos brasileiros, o "ecstasy". Igual que outras
substâncias do gênero, "ya ba" facilita a produção de dopamina pelo cérebro,
proporcionando uma sensação de prazer e bem estar. O reverso do prazer (como
em outras drogas...), são manifestações de agressividade, violência,
automutilação e morte, muitas vezes por suicídio.
Ela é uma droga fácil de utilizar, podendo ser inalada em vapor (pelo
aquecimento) ou simplesmente ingerida. O preço é outro estímulo ao uso, já
que pode ser comprada pelo equivalente a alguns poucos dólares. Existe uma
falsa impressão, generalizada, de que o "ya ba" não cria dependência
química: cria, e muita!
Os lucros com o tráfico são bastante grandes, já que o custo de produção, da
ordem do equivalente a alguns poucos centavos de dólar, chega a ser
remunerado dezenas de vezes mais quando a droga é comercializada nas ruas. É
comum a utilização de menores viciados para fazerem a venda de "ya ba", com
eles fazendo o tráfico na escola onde estudam, para com isso manter o
próprio vício.
Registros históricos dão conta de que a origem do "ya ba" aconteceu no
Japão, em 1893, onde recebeu o nome de "shabu". Hoje em dia ele é produzido
na Tailândia e Birmânia, já tendo chegado aos mercados consumidores
ocidentais. Sabe-se que essa anfetamina foi utilizada por militares na
segunda guerra mundial, tanto alemães, a caminho do "front", quanto pelos
"kamikases", pilotos japoneses que faziam missões suicidas em "aviões
bomba".
Na Tailândia são da ordem de três milhões os consumidores do "ya ba", numa
progressão em que o número de usuários vem dobrando a cada ano desde 1997.
Essa velha anfetamina, tradicionalmente utilizada por motoristas tailandeses
para ficarem acordados, passou a ser agora "droga recreacional" de jovens
freqüentadores de discotecas e festas "rave", o mesmo grupo de usuários da
já conhecida "ecstasy".
Ainda na Tailândia, nos últimos cinco anos, ocorreu uma verdadeira explosão no
número de pacientes de clínicas de desintoxicação apresentando dependência
do "ya ba". Enquanto até 1997 eles eram apenas 30% do total de pacientes,
hoje são mais de 80%. É extremamente baixa a faixa etária dos viciados
tailandeses nessa anfetamina, com a idade média deles tendo caindo de 17
para 13 anos.
É importante que as autoridades brasileiras estejam atentas e vigilantes
para interceptar mais essa droga, usualmente enviada de maneira dissimulada
do exterior, chegando tanto pela via postal, quanto inserida em objetos
chegados de fora do país por outros meios.
* O Dr. George Felipe de Lima Dantas é especialista em segurança pública
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