Arqueologia
Paleopatologia revela que algumas doenças de hoje já vitimavam populações primitivas
(Agência Brasil - 01/03/2002)
Há três mil anos a tuberculose já causava mortes no norte do Chile e no sul do Peru. Provavelmente, a enfermidade, ao lado de muitas outras, também vitimava antigos habitantes do Brasil. A reunião da medicina e da arqueologia, ou paleopatologia, resgata no passado quais doenças atingiam as comunidades primitivas, ao mesmo tempo em que revela como modos de vida favoreciam o aparecimento das mesmas.
Assim como existem enfermidades surgidas hoje, a paleopatologia relaciona condições de vida e características ambientais do local onde se encontravam as populações para o aparecimento de determinadas enfermidades. A diversidade de combinações mostrou, pela análise de ossadas em sítios arqueológicos, que o grupo humano que habitou a Furna do Estrago, em Pernambuco, tinha mais vértebras na região lombar em conseqüência de casamentos co-sanguíneos.
Segundo a pesquisadora titular do Departamento de Endemias da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Sheila Ferraz Mendonça, além dos males próprios a cada grupo, é comum encontrar em todas as comunidades analisadas doenças infecciosas provocadas por fraturas. ''De modo geral, percebe-se sinais de acidentes ou lesões traumáticas causada pelo esforço físico que essas populações faziam'', afirma.
Por conta do modo de vida mais rústico, as atividades que os integrantes dos grupos realizavam ocasionavam desde doenças nas articulações a problemas de coluna. Já os acidentes nem sempre eram conseqüência de duelos na comunidade, embora as lutas fizessem parte da história de algumas populações. Sheila explica que o próprio meio de transporte, como cavalos ou trenós eram os responsáveis pelos danos.
Já em uma comunidade que viveu em Pernambuco há 1.600 anos, muitos dos acidentes nada tinham a ver com transporte. Os pesquisadores concluíram que as fraturas encontradas, predominantemente na coluna vertebral, eram resultado de quedas das palmeiras (que circundavam a região) depois de encontrarem objetos de adorno e restos de alimentos provenientes de materiais retirados da planta.
O conhecimento de outras alterações, patologias, sua evolução e impacto nas populações anteriores, só não é maior no Brasil pelos poucos grupos de profissionais, concentrados em São Paulo e Rio de Janeiro, como também por aspectos que transcendem os recursos humanos: a própria conservação dos restos mortais.
Normalmente, os pesquisadores encontram nos sítios arqueológicos só as partes do organismo que demoram mais tempo para se desintegrar, ou seja, ossos e dentes. ''No Brasil, o clima dificulta a conservação do corpo, o que nos impede de fazer um estudo detalhado'', informa Sheila. A condição restringe o estudo às doenças que se manifestam nos ossos (sífilis, hanseníase, anemia), dificultando os estudos das que são causadas por vírus, por exemplo.
Segundo Sheila, a grande maioria das viroses, como sarampo, catapora, varíola e dengue, não deixa marca. ''Não conhecemos reflexos diretos das infecções virais, embora algumas deixem sinais indiretos de seus efeitos, como a poliomielite, que causa paralisia, e com o passar dos anos leva a atrofias e deformidades nos ossos e articulações na região do corpo afetada'', explica.
Com o material que têm em mãos, os pesquisadores são capazes de detectar doenças traumáticas, degenerativas ou anomalias congênitas a exemplo da displasia fibrosa, que provoca alterações no tecido ósseo. Nos dentes, os estudiosos identificaram problemas que apesar do tempo ainda não desapareceram, como o tártaro.
Para expandirem seus conhecimentos, os pesquisadores muitas vezes viajam a países que possuem corpos mais bem conservados. Sheila revela que um dos locais mais ricos academicamente é o Deserto do Atacama, considerado o lugar mais seco do planeta. Assim como as regiões bastante áridas, os locais muito frios também desaceleram a decomposição do organismo. ''Há várias condições climáticas que favorecem a conservação dos materiais biológicos. Quanto mais rápido for detido o processo de putrefação, por ação dos microorganismos, melhor'', comenta.
De acordo com Sheila, entre as referidas características estão os locais de alta temperatura com baixa umidade (áreas desérticas quentes), os de baixa temperatura associada à baixa umidade (gelo, neve), os de baixa temperatura com baixa umidade (desertos frios), os ambientes nos quais há falta de oxigênio (pântanos e turfeiras na Europa) e as áreas com grande concentração de sal. ''A conservação geralmente é melhor em lugares frios e úmidos como os pântanos e geleiras porque não há nem a contração por desidratação dos tecidos'', aponta.
Em outros casos, a região não se encaixa exatamente em uma das condições, mas oferece um atrativo diverso. É o caso do Egito, que não tem a peculiaridade climática do Chile, mas também atrai os estudiosos por ter cadáveres conservados pelas técnicas de mumificação. Os pesquisadores puderam fazer um estudo detalhado da arterosclerose, doença que obstrui as artérias, possível apenas porque o corpo embalsamado ainda tinha o coração.
As incursões, às vezes, revelam mais que o estado dos corpos. Os estudos em terras egípcias mostraram conhecimentos médicos avançados para a época. ''Existem cadáveres que apresentam várias perfurações no crânio, o que demonstra que o indivíduo foi operado por trepanação mais de uma vez'', observa a pesquisadora.
O trabalho para chegar às conclusões é cuidadoso e necessita de uma equipe formada por diversos profissionais, do arqueólogo (que faz a escavação), ao antropólogo e paleopatologista. Sheila explica que o material recolhido passa por análises de DNA, exames de radiografia, tomografia e histologia, que fornecerão as bases para a descoberta das doenças que as comunidades primitivas enfrentavam.
Apesar de, em um primeiro momento, as doenças serem relacionadas à morte e conseqüente extinção de comunidades, Sheila alerta que é preciso ter cautela com o assunto. ''Temos que ter muito cuidado com essa idéia porque o fato de ''desaparecerem'' algumas culturas não quer dizer extinção'', pontua. De acordo com a médica, a mudança de local é um fator que explica melhor as pistas que os pesquisadores perderam para ampliar os estudos.
A Petrobrás expõe, a partir de 1.º de abril na entrada do edifício da Avenida Chile, no Rio de Janeiro, uma exposição sobre Paleopatologia, que já esteve no Museu Nacional (vinculado à UFRJ) e que atualmente se encontra no Museu Arqueológico do Xingó, em Canindé do São Francisco, Sergipe. A mostra leva ao público ossos, arcadas dentárias, tecidos mumificados, materiais usados em arqueologia e painéis com imagens de coleções pessoais e instituições de pesquisa.
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