Preservando a Floresta e o Homem
Sob ação dos "missionários pós-modernos", cultura dos nativos da Amazônia também sofre perigo de extinção
Dr.George Felipe de Lima Dantas *
A existência de boa parte da região amazônica em território brasileiro
certamente centraliza e intensifica a questão ecológica em nosso país.
Padecemos historicamente da falta de políticas públicas claramente
estabelecidas para essa região, local que hoje é o foco da atenção do resto
do mundo sobre o Brasil. Uma das conseqüências disso é a nossa permanente
vulnerabilidade política, diante de movimentos internacionais de preservação
ecológica, "watchdogs" (cães de guarda) sempre prontos a denunciar supostas
crises da política conjuntural brasileira com impacto na hiléia, tanto em
relação à exploração dos seus recursos naturais, quanto aos problemas
decorrentes do contato entre 'civilizados' e grupos étnicos nativos.
Temos respondido positivamente, de alguma forma, aos anseios nacionais e
internacionais em relação à preservação da amazônia brasileira, mas
importantes questões, ainda invisíveis aos olhos da nação, continuam
tragicamente negligenciadas. Se os princípios norteadores das políticas
públicas nacionais para a Amazônia devem lidar com a dificuldade do trato de
problemas complexos e dinâmicos em relação à
exploração dos recursos da região, não se pode dizer o
mesmo em relação aos grupos étnicos lá existentes. Preservar os 'povos da
floresta,' ou promover sua aculturação, representa conceitualmente uma
dicotomia bastante conhecida dos brasileiros, com sobejos precedentes
históricos. Vale relembrar o enorme desastre ocorrido em tempos coloniais,
época que marca o início do desaparecimento de vários grupos nativos após
seus primeiros contatos com os colonizadores europeus.
Atualmente sabe-se da vulnerabilidade imunológica dos povos nativos em
geral, realidade de conseqüências trágicas ao longo da história, tanto no
Brasil quanto no resto do mundo. Uma vez expostas a doenças
infecto-contagiosas trazidas ao seu meio ambiente por não-nativos, essas
populações estão fadadas ao desaparecimento.
É sabido hoje que o conhecimento de boa parte das riquezas amazônicas está
profundamente assimilado na cultura de seus povos nativos, remetendo a
questão de sua exploração racional e econômica ao respeito e conservação do
patrimônio 'etno-botânico' dos povos da floresta. Tal conceito associa as
riquezas locais ao conhecimento acumulado pelas culturas ancestrais da
região, fazendo com que flora, fauna e cultura estejam intimamente ligados
nessa relação sinérgica de conhecimento, respeito, uso e conservação. Mas se
a preservação física e tangível dos 'povos da floresta' é uma questão de
caráter natural, imunológico e médico, sua preservação 'enquanto cultura'
possui um forte componente político, muito mais controlável e ameno à
intervenção do Estado. Preservação cultural, em linguagem leiga, implica dar
condições às populações indígenas de seguirem com seu próprio modo de vida,
baseado em crenças e costumes milenares de seus ancestrais. Na base de tudo
isso estaria a própria 'visão cósmica' desses grupos, seus 'mitos
teológicos' inclusive.
É tocante a constatação de que a cosmologia Yanomame faça com que eles se
auto percebam como 'o povo' (tradução da expressão "Yanomame"). Eles
acreditam viver num lugar da Terra que, literalmente, "caiu do céu," de
acordo com aquela mesma visão cósmica. Assim como judeus e cristãos,
budistas, islâmicos ou outro grupo religioso qualquer, nossos indígenas
possuem suas próprias divindades e as cultuam como vários outros povos.
Estudando o mito teológico de diferentes povos, o renomado antropólogo
norte-americano Joseph Campbell
(The Hero With a Thousand Faces - 1973)
sublinha a importância desse conceito no referencial de diversos grupos,
funcionando como um elemento básico de conservação cultural. É impossível
proteger nossos nativos, em sua expressão cultural única e singular, ao
mesmo tempo que permitindo a destruição sistemática de seus valores
culturais por 'missionários profissionais', novos cruzados da era moderna.
Sob a alegação de conduzirem programas de 'caridade amazônica,' algumas
autoridades ainda permitem que grupos estrangeiros, ou mesmo brasileiros,
promovam o endoutrinamento religioso de povos nativos da Amazônia, o que
corresponde invariavelmente ao 'desmonte' da identidade cultural de tais
etnias. Em troca de alguns poucos medicamentos da cultura ocidental e
eventuais cuidados médicos, bens e serviços que os indígenas brasileiros
nunca esperaram ter, se permite que esses 'cruzados da era moderna' terminem
por tirar deles tudo que sempre tiveram e esperavam continuar tendo para
sempre: sua cultura milenar. Em seguida, os nativos que logram sobreviver a
esse verdadeiro etnocídio, vão juntar-se às hordas de brasileiros urbanos
excluídos, passando a ser vitimas das mesmas 'enfermidades sociais' de
não-nativos: pobreza, violência e crime, prostituição, alcoolismo,
desemprego, etc.. Como nativos, deixam de ter tudo aquilo que sempre
tiveram, para serem convertidos numa subclasse de 'civilizados,' senhores de
quase nada do que nunca pretenderam ter.
A contra-partida disso é uma idéia equivocada de altruísmo e de dever
cumprido. Alguns pseudo-messias pós-modernos, com uma agenda etnocêntrica da
Europa e América do Norte, continuam a reeditar, no Brasil de hoje, o
referencial de miséria estabelecido séculos atrás nas Américas, Ásia e
África. É urgente a necessidade de conceber a Amazônia, em suas imensas
possibilidades econômicas, como um amálgama de componentes indissociáveis e
que inclui, necessariamente, o natural e o cultural: a floresta e o homem.
* O Dr. George Felipe de Lima Dantas é especialista em segurança pública
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